sábado, 17 de agosto de 2013

Terceiro domingo de agosto, vocação à vida religiosa consagrada

Neste terceiro domingo de Agosto (18) Celebramos a vocação Religiosa. Queremos agradecer a Deus e pedir pela vida doada de tantos irmãos e irmãs religiosos que são em nossa sociedade, nas mais diversas realidades, presença do Reino de Deus.

O religioso é aquele que se consagra a Deus pelos votos de Castidade, Pobreza e Obediência em uma determinada família religiosa. Por esta consagração os religiosos querem viver o primado do absoluto, que Deus seja o centro de suas vidas. Assim os religiosos vivem em espirito de total entrega de si a Deus e no serviço aos irmãos, é uma vida doada, feita oblação.

Pelo Voto de Castidade o religioso renuncia a relação conjugal, não porque considere o matrimônio algo inferior, mas porque quer se dedicar totalmente à causa do Reino de Deus. Por este voto o religioso se propõe a amar radicalmente a Deus e aos irmãos, de modo especial os empobrecidos e excluídos.

Assim poderíamos definir o voto de castidade: Amar Deus acima de todas as criaturas (isto é, com todo coração, com toda alma e com todas as forças), para amar com o coração e com a liberdade de Deus toda criatura, sem se ligar a nenhuma nem excluir nenhuma (isto é, sem seguir os critérios eletivos - seletivos do amor humano) ou antes, amando de modo particular quem se sente mais tentado a não se sentir digno de amor ou quem não é realmente amado[1]. Como vemos, a castidade religiosa, livremente assumida, é fecunda, geradora de vida, pois é um amor radical a Deus com um coração indiviso e amor radical aos irmãos. 

A pobreza livremente assumida em favor do Reino liberta o religioso dos apegos aos bens, para que possa amar sem reservas a Deus e aos irmãos. Por meio deste voto, o religioso se torna uma profecia, anunciando que existem valores maiores que os bens materiais, como a amizade, o amor, a solidariedade. É um testemunho de que não são os bens materiais que nos tornam felizes, não dependemos deste ou daquele bem de cosumo para sermos alguém. O valor do ser humano não está naquilo que ele consome ou produz, mas naquilo que ele é, filho de Deus.

Pelo voto de pobreza o religioso quer se confiar inteiramente nas mãos do Pai, fazendo-se dependente de Deus e, ao mesmo tempo, independente dos condicionamentos do sistema. É uma renúncia a supostas seguranças, para confiar inteiramente em Deus. O religioso é também chamado a viver uma vida oblativa, vida para o outro, de doação e gratuidade. É contrário ao voto de pobreza as posturas egoístas, de fechamento em si mesmo. Principalmente na vida comunitária o religioso deve demonstrar um coração livre, aberto ao outro e gratuito no amor. O caráter da fraternidade da experiência do religioso não surge pelo fato de as pessoas estarem juntas, mas surge no interior da própria experiência de Deus, feita no e com o irmão, porque em Jesus Cristo, Deus mesmo se fez nosso irmão[2].

Somos chamados a viver a pobreza porque Cristo se fez pobre. O Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Além de se fazer pobre, Jesus fez uma radical opção pelos pobres e excluídos. Ele quis ter em sua companhia pobres e pessoas excluídas, tidas como impuras, como cobradores de impostos. É uma traição da mensagem de Jesus deixar de lado a opção preferencial pelos pobres. Esta não é uma invenção de uma determinada corrente teológica, como muitos preferem pensar, mas é a opção de Jesus. Por isso não dá para ser cristão e muito menos religioso sem fazer esta opção. Precisamos ouvir o clamor de tantos crucificados. Nossa missão é de descer da cruz todos aqueles que estão crucificados seja pela sua condição social, racial, de gênero...
 
A vivência do voto de pobreza implica também em uma vida de partilha. A oração do Senhor nos lembra que o Pai é nosso e que o pão é nosso. O voto de pobreza é incompatível com um sistema que se pauta pelo lucro, pelo acúmulo, que concentra grande parte das riquezas nas mãos de poucos e deixam tantos irmãos sem o que comer e sem ter onde morar. Não é possível viver o voto de pobreza e compartilhar com as injustiças sociais. 

Pelo Voto de Obediência o religioso quer imitar a obediência de Cristo, que em tudo fez vontade do Pai, anunciando seu reino, fazendo sua obra. Do mesmo modo o religioso consagrado não vive somente tendo em vista seus interesses pessoais, seus caprichos, mas coloca-se a disposição de uma vontade maior que a sua: a vontade de Deus. Professar a obediência é não pensar somente em nossas vontades e caprichos, mas pensarmos nas necessidades da Igreja, da sociedade, de tantos irmãos e irmãs. Foi este desapego de si mesmo que levou tantos religiosos e religiosas a doarem suas vidas pela Igreja, no serviço aos irmãos e irmãs. Assim, se vê que o voto de Obediência não é uma anulação de si mesmo, mas é antes uma saída de si, de nosso egoísmo, para nos colocarmos a serviço dos irmãos, principalmente daqueles mais necessitados. 

Finalmente, queremos neste dia em que celebramos a Assunção de Nossa Senhora, rezar por todos os religiosos e religiosas para que Deus os fortaleça em sua missão de viver radicalmente o discipulado de Cristo no serviço aos irmãos. 

ORAÇÃO 
Filho de Deus, enviado pelo Pai para junto dos homens de todos os tempos e de todas as partes da terra! Invocamos-vos por meio de Maria, vossa e nossa Mãe: fazei com que na Igreja não faltem vocações, em particular as de especial consagração ao vosso Reino. Jesus, único Salvador do mundo! Pedimos-vos pelos nossos irmãos e pelas nossas irmãs, que responderam “sim” ao vosso apelo ao sacerdócio, à vida consagrada e à missão. Fazei com que as suas existências se renovem no dia-a-dia, tornando-se  Evangelho vivo. Senhor misericordioso e santo, continuai a envia
r  novos trabalhadores para a messe do vosso Reino! Ajudai aqueles que Vós chamais para o vosso seguimento neste nosso tempo: fazei com que, contemplando o vosso rosto, eles respondam com alegria à maravilhosa missão, que lhes confiais para o bem do vosso Povo e de todos os homens. Vós, que sois Deus, viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, nos séculos dos séculos. Amém!



[1] CENCINI, Amedeo. Virgindade e Celibato Hoje. Lisboa: Paullus, 2008. p. 18
[2] BOFF, Leonardo. Experimentar Deus. Campinas: Verus, 2002. p. 149